quinta-feira, abril 26, 2007

Leituras FDS#4 - 300


Obra imprescindível para qualquer amante de Banda Desenhada que se preze, “300” já faz parte das obras-primas da história mais recente da BD, se assim a posso classificar, executada por um dos artistas mais conceituados da geração que marcou o panorama bedéfilo no final do século passado, Frank Miller. Diria mesmo que é uma obra obrigatória. Se ainda não a leu, então apresse-se a fazê-lo.
300” é inspirado na histórica batalha das Termópilas, decorria então o ano de 480 A.C. Convém esclarecer alguns críticos mais acesos, que livro não retrata factos históricos de forma 100% fiável, mas funciona como um género de romance histórico ilustrado, no qual o autor junta várias peças de veracidade histórica, mas ao mesmo tempo tempera-a a seu bel-prazer com vários pedaços de ficção, da forma que melhor lhe aprouver. É dessa forma que este livro deve ser entendido.
A acção divide-se em cinco partes, a saber: Honra, Dever, Glória, Combate e Vitória. Numa primeira instância, esta mini-série foi publicada pela Dark Horse (1998) em cinco comics e mais tarde compilada em formato italiano de capa dura em Portugal, pela Norma (2004), que enaltece bastante a qualidade do trabalho dos dois artistas.

“Marchamos.” Assim começam os espartanos, em busca de vitória. Nesta sua jornada, cedo se juntam os Arcádios, povo com a sua dose de coragem, mas sem grande tradição guerreira contrariamente aos seus compatriotas espartanos, que desde muito jovens passam por variadas provas de sobrevivência para a sua preparação para a vida adulta, onde só os melhores guerreiros são naturalmente seleccionados.
No centro do enredo está Leónidas, Rei de Esparta e dos espartanos. Cedo conhecemos este homem pela forma como pensa, age e transmite a sua sabedoria. Daí os seus homens o terem como exemplo, seguindo-o para qualquer local ou destino, sem perguntas nem dúvidas. E é Leónidas que traça esse destino bem cedo, aquando da recepção ao arrogante mensageiro persa. É neste momento que o Rei decide enfrentar o inimigo com a sua guarda de elite, os 300.
O resto é história, que deverá ser lida. Os 300 bravos lutam, resistem e derrotam, desde comuns guerreiros até outros ditos imortais (até que o seu nome é posto à prova). Pelo meio o exército de Xerxes vai perdendo gás e o próprio Rei-Deus é levado a sentir um arrepio muito humano na espinha. O confronto final reserva-nos algumas surpresas, se bem que o desfecho é conhecido e inevitável.
A arte do desenho fica a cabo de Frank Miller, que é simplesmente excelente. É típico da sua pessoa, não trazendo nada de extraordinariamente novo para quem conhece o seu trabalho, se bem que se nota uma constante evolução na sua obra, e “300” é um desses pontos altos.
A cor, da responsabilidade de Lynn Varley, é das melhores aplicações de aguadas que vi em BD. O espírito de “300” é captado na perfeição através da coloração dada pela artista, misturando os tons castanhos, amarelos e ocres, transmitindo-nos uma atmosfera de antiguidade distinta, aproveitando os cenários nocturnos para trabalhar cinzentos, lilases e azuis. Certas vinhetas mereciam destaque de página inteira, mas como é óbvio tem de existir selecção. Em cenas de batalha, tons vermelhos são predilectos, mesclando-se novamente com as tonalidades escolhidas para retratar a antiguidade da história.
Se dúvidas houver em relação à qualidade da obra, esta venceu 2 Prémios Harvey em 1999 (Melhor Série e Melhor Cor), 3 Prémios Eisner em 1999 (Melhor Série Limitada, Melhor Autor Completo e Melhor Cor), Prémio Salão de Barcelona 2000 (Melhor Obra Estrangeira), entre muitos outros. Mais uma prova é a sua recente adaptação à 7ª Arte, como posso comprovar, com grande sucesso.

Depois de ler o original e mais tarde a tradução para o português, pouco tenho a apontar neste campo. Existem frases marcantes durante todo o livro e são nessas mesmas frases que o teste é feito ao tradutor. Com relação à colocação do texto nos balões e afins, louvo o trabalho da pessoa responsável por tal tarefa. Deve ter sido de arrancar cabelos, pois o espaço era mínimo, obrigando a partir o texto na grande maioria dos casos, dificultando a leitura, mas diga-se de passagem que não havia grande alternativa.

Para terminar, “Se algum dia uma alma livre aqui passar, nos incontáveis séculos ainda por vir, que as nossas vozes lhe sussurrem desde as pedras sem idade: vai dizer aos espartanos, viajante, que aqui, pela lei espartana, jazemos.”, “Para a vitória, carregamos.”.
Boas leituras!


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Mauro Bex : maurobindo

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